Quando Deus demora, mas não se ausenta (meu favorito)


O silêncio que também é resposta

Há um tipo de oração que ninguém ensina nos cultos: aquela que fazemos às três da manhã, de olhos abertos, olhando para o teto, sem saber direito o que dizer. Não é uma oração bonita, não tem estrutura, não agradece nem pede com ordem. É só um suspiro que sobe. E, muitas vezes, depois dele, vem o silêncio.

Esse silêncio costuma doer mais do que qualquer negativa. Se Deus dissesse "não", ao menos saberíamos onde pisar. Se dissesse "sim", correríamos. Mas o silêncio nos deixa suspensos, como alguém que bateu à porta e ouve apenas os próprios passos ecoando no corredor.

Marta e Maria esperaram quatro dias

Em João 11, Lázaro está doente. As irmãs mandam avisar Jesus, e a mensagem é simples: aquele a quem amas está enfermo. Não pedem nada explicitamente, porque achavam que não era preciso. Quem ama sabe o que fazer.

O texto, então, diz algo que dá um nó na garganta: Jesus amava Marta, Maria e Lázaro, e por isso permaneceu mais dois dias onde estava. Releia com calma. A demora não aparece como contradição do amor. Aparece como consequência dele, ou pelo menos como algo que convive com ele.

Imagine a casa em Betânia nesses dias. Alguém enxugando a testa do enfermo, alguém olhando pela janela para a estrada, esperando ver uma silhueta conhecida. A febre sobe, a respiração muda, e a estrada continua vazia. Lázaro morre. Jesus ainda não chegou.

Quando finalmente chega, Marta vai ao encontro dele e diz uma frase que carrega, ao mesmo tempo, fé e queixa: "Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido." Não há nada de errado nessa frase. Jesus não a repreende. Ele a deixa falar, e depois a conduz a um passo além do que ela imaginava ser possível.

O que a demora esconde

Nós costumamos interpretar a demora de Deus como ausência. Mas a Bíblia insiste em mostrar que, muitas vezes, a demora é o espaço onde algo maior está sendo preparado. Abraão esperou vinte e cinco anos pelo filho prometido. José passou anos em um poço, numa casa alheia e numa prisão antes de ver qualquer sentido no que lhe acontecia. Moisés passou quarenta anos cuidando de ovelhas no deserto, num lugar onde ninguém o chamaria de libertador.

Nenhum deles sabia, enquanto esperava, o que estava sendo feito. É isso que torna a espera tão difícil: ela exige confiança sem visão. Se pudéssemos ver o lado de lá da cortina, a espera seria apenas paciência. Como não vemos, ela é fé.

A diferença entre esperar e apenas aguardar

Aguardar é ficar parado, de braços cruzados, contando os minutos. Esperar, no sentido bíblico, é diferente. A palavra hebraica usada em muitos salmos carrega a ideia de uma corda trançada, de fios que se juntam e se fortalecem. Esperar em Deus é ser trançado a ele no meio do tempo que passa.

Isso significa que a espera não é um intervalo vazio entre a oração e a resposta. Ela é parte da resposta. Enquanto esperamos, algo em nós está sendo fortalecido: a humildade de reconhecer que não controlamos o relógio, a ternura de quem aprendeu a depender, o discernimento de quem percebeu o que realmente importa.

O profeta Isaías diz que os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam. Repare na ordem: primeiro a força é renovada, depois vêm as asas, a corrida e a caminhada. A renovação acontece na espera, e o resto é consequência.

Quando a oração parece não chegar

Existe uma tentação sutil nesses períodos: concluir que Deus não está ouvindo. Mas pense em como uma criança pequena interpreta o silêncio do pai que está no cômodo ao lado, trabalhando. Ela acha que foi esquecida. Só que o pai está ali, atento ao menor ruído, pronto a vir ao primeiro choro de verdade.

O salmista não esconde seu cansaço. Ele escreve: "Até quando, Senhor, te esquecerás de mim para sempre?" É uma pergunta crua, feita por alguém que tem fé suficiente para ser honesto. A Bíblia guardou esse grito, o que nos diz algo importante: Deus não exige que a nossa oração seja educada. Ele aceita o desabafo, a pergunta sem resposta, o "por quê" repetido.

E há algo que costuma passar despercebido nesse mesmo salmo. Ele começa com queixa e termina com confiança, mas a mudança de tom não vem de uma resposta externa. Vem de um deslocamento interno: "Eu, porém, confio na tua misericórdia." Nada mudou nas circunstâncias entre o verso um e o verso cinco. Mudou o lugar de onde o salmista olha.

Pequenas sementes no escuro

Uma semente enterrada não vê nada. Está num lugar escuro, úmido, apertado, e se pudesse falar provavelmente diria que foi abandonada. Mas é exatamente ali, no escuro, que a casca se rompe e a raiz começa a descer. Quem passa pelo jardim nessa fase não vê flor alguma, só terra remexida. E, no entanto, é a fase em que tudo está sendo decidido.

Jesus usou essa imagem para falar da própria morte: se o grão de trigo não cair na terra e morrer, fica só; mas se morrer, produz muito fruto. O que parece fim, enterro e silêncio é, no reino de Deus, uma forma de começo.

Talvez você esteja hoje em uma estação assim. A oração que fez há meses ainda não teve resposta visível. O sonho parece adiado, a porta continua fechada, a saúde não melhorou, a reconciliação não veio. Não é preciso fingir que isso não dói. Mas é possível, ao mesmo tempo, sustentar uma convicção silenciosa: o que Deus começa, ele sabe terminar, e o tempo dele não é o tempo da nossa ansiedade.

O que fazer enquanto isso

A espera não pede paralisia. Pede fidelidade nas coisas pequenas. Faça o trabalho que está diante de você. Cuide de quem está perto. Continue a orar, ainda que as palavras saiam secas. Continue a abrir a Bíblia, ainda que pareça que o texto não fala. Fidelidade no escuro vale mais do que entusiasmo na luz, porque ninguém está aplaudindo.

Aprenda também a perceber os sinais pequenos de que Deus está presente mesmo sem ter dado a resposta que você pediu. Um amigo que liga no momento certo. Um versículo que ganha vida de repente. Uma paz inexplicável no meio da incerteza. Esses sinais não substituem a resposta, mas são como a mão no ombro de quem caminha em um corredor escuro: não acendem a luz, mas lembram que há companhia.

Em Betânia, no quarto dia, a pedra foi removida, Jesus gritou o nome de Lázaro, e o homem saiu envolto em faixas. A espera das irmãs não foi desperdiçada, mas ampliada: elas pediram a cura de um doente e receberam a ressurreição de um morto. A resposta de Deus havia sido maior do que a pergunta, e só cabia no tempo mais longo.

Que a sua oração desta noite seja simples. Não precisa ser longa, nem elaborada. Diga apenas: "Senhor, eu não entendo, mas estou aqui." Ele sabe o que fazer com orações assim.


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