Deus não despreza ninguém, mas os homens sim


O que as Escrituras dizem sobre o olhar de Deus

Um dos salmos afirma que Deus não desprezou nem rejeitou o sofrimento do aflito e que não escondeu dele o rosto, mas o ouviu quando clamou. Outro diz que um coração quebrantado e arrependido é algo que Deus jamais despreza. Não são frases isoladas: a Bíblia inteira repete que o olhar divino se volta justamente para quem foi deixado de lado.

Esse olhar não depende de mérito, aparência, posição social ou histórico. O Deus retratado nas Escrituras vê Agar fugindo no deserto, ouve o clamor dos escravos no Egito e escolhe Davi, o menor dos irmãos, quando todos apostavam no mais alto e forte. Ele parece ter uma predileção por quem ninguém escolheria.

O desprezo é uma invenção humana

Se Deus não despreza, de onde vem o desprezo? Vem de nós. Desprezar é um ato de comparação: para me sentir acima, preciso colocar alguém abaixo. Por isso o desprezo quase sempre tem uma função escondida, a de proteger a nossa própria imagem.

Jesus contou uma parábola dirigida, segundo o próprio texto, a pessoas que confiavam em si mesmas como justas e olhavam os outros com desdém. Dois homens sobem ao templo para orar. O primeiro agradece por não ser como os demais, e cita até o outro homem, o cobrador de impostos, que está ali perto. O segundo nem levanta os olhos e só pede misericórdia. A conclusão é desconcertante: quem saiu justificado foi o segundo. A oração do primeiro parecia religiosa, mas era uma vitrine de superioridade.

Quem os homens costumam desprezar

A lista muda de época para época, mas o padrão se repete. Despreza-se o pobre, porque a pobreza incomoda e sugere que "não se esforçou". Despreza-se o doente, o idoso, o estrangeiro, o analfabeto, o que errou, o que foi preso, o que não tem aparência, título ou sobrenome. Despreza-se quem tem outra fé, outra cor, outro sotaque, outra forma de viver.

Nos evangelhos, quase todas as pessoas que Jesus procura estavam nessa lista: leprosos, cobradores de impostos, mulheres de reputação condenada, samaritanos, pescadores sem estudo, crianças que os discípulos queriam afastar. Zaqueu, odiado pela cidade inteira, foi chamado pelo nome e recebeu Jesus em casa. A mulher flagrada em adultério, que já tinha pedras nas mãos de outros apontadas para ela, ouviu que ninguém ali estava em condições de condená-la. O padrão é constante: onde a multidão via alguém descartável, ele via alguém que valia a pena.

O desprezo de quem se diz religioso

Talvez o aspecto mais doloroso seja este: nem sempre o desprezo vem de fora da fé. Muitas vezes aparece dentro dela. O irmão mais velho da parábola do filho pródigo nunca saiu de casa e, mesmo assim, não conseguia entrar na festa. Ele olhava para o irmão que voltou e só via o erro dele, nunca o retorno. Cumpria as regras, mas não tinha o coração do pai.

Há gente que usa a religião como régua para medir os outros, e não como espelho para examinar a si mesma. Nesse caso a fé, que deveria abrir os braços, vira tribunal. O texto bíblico é duro com isso: a carta de Tiago condena quem dá lugar de honra ao rico e empurra o pobre para o canto. E a advertência de que julgar sem misericórdia produz um julgamento sem misericórdia é um dos recados mais incômodos de todo o Novo Testamento.

O peso de ser desprezado

Quem já foi desprezado sabe que a dor não se resume ao momento. Ela vira uma voz interna. A criança que ouviu "você não presta" cresce repetindo isso para si. O adulto que foi humilhado no trabalho, na família ou na igreja passa a se encolher antes mesmo de alguém o rejeitar.

O desprezo ensina a pessoa a se ver com os olhos de quem a desprezou. E é aí que a frase "Deus não despreza ninguém" ganha força prática: ela oferece outro ponto de vista, uma segunda voz para contrapor à primeira. A pessoa pode até ter sido descartada por gente, mas isso não define o seu valor diante de quem a criou. Para muita gente em sofrimento, essa ideia funciona como o primeiro apoio depois de uma queda longa.

Vale lembrar também que a própria tradição cristã reconhece que o desprezado não está sozinho. Um texto profético descreve o servo sofredor como alguém desprezado e rejeitado pelos homens, familiarizado com a dor. Para os cristãos, isso se cumpre em Jesus, que foi zombado, abandonado pelos amigos e condenado como se fosse ninguém. Um Deus que conhece por dentro a experiência do desprezo dificilmente pode ser acusado de ficar indiferente a ela.

Quando o desprezo é normalizado

Existe um risco que passa despercebido: acostumar-se. O desprezo repetido deixa de chocar. Passamos pelo morador de rua como quem passa por um poste. Rimos da piada que humilha alguém. Compartilhamos o comentário cruel sobre quem pensa diferente. Desviamos o olhar de quem pede ajuda porque já temos uma justificativa pronta: "ele escolheu isso", "não é problema meu", "sempre foi assim".

Cada uma dessas pequenas decisões parece inofensiva, mas juntas formam uma cultura em que ignorar o outro é o padrão e olhar para ele exige esforço. Uma sociedade assim pode até ser eficiente e organizada, mas é fria. E quem faz parte dela acaba descobrindo, cedo ou tarde, que também pode ser o próximo a cair da lista dos "dignos de atenção".

O que fazer com isso

Diante de tudo isso, a pergunta mais honesta não é "quem me desprezou?", mas "quem eu desprezei sem perceber?". O exercício é desconfortável, porque quase todos temos nomes e rostos para colocar nessa lista. Talvez seja o parente com quem não falamos há anos, o colega que consideramos inferior, o vizinho que evitamos, o desconhecido de quem desviamos o olhar.

Algumas atitudes concretas ajudam a sair do padrão:

  1. Aprenda o nome das pessoas. O porteiro, a faxineira, o entregador, quem serve o café. Chamar alguém pelo nome é um gesto simples que devolve humanidade.
  2. Escute antes de julgar. A maior parte dos rótulos que colamos nos outros cai por terra quando ouvimos a história completa.
  3. Peça perdão quando for o caso. Reconhecer que desprezamos alguém é um passo que poucos dão, e quase sempre é o que abre a porta para a reconciliação.
  4. Use a posição que você tem a favor de quem não tem. Quem tem voz, dinheiro, influência ou tempo pode usar isso para incluir, e não para excluir.
  5. Comece por quem está perto. Nem toda transformação passa por grandes causas. Muitas começam por não revirar os olhos para quem está na mesma mesa.
  6. Trate a si mesmo com o mesmo respeito. Quem se despreza tende a desprezar os outros. Aceitar que também somos amados, com nossas falhas, é o que nos permite amar sem exigir perfeição de ninguém.

Deus não despreza ninguém. Essa afirmação, para quem crê, não é apenas um consolo para quem sofre. É também um convite para quem vê: se o olhar de cima não descarta ninguém, o nosso, aqui embaixo, não tem motivo para descartar.


Postar um comentário

0 Comentários